Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

36 anos, actriz, Belgrado, Sérvia

 

Embora tenha sido obrigada a mudá-lo, estou feliz com o meu destino.

 

Um dia, ainda em Belgrado, enquanto dormia num abrigo de protecção antiaérea, uma explosão, ou melhor, uma lágrima, o que é ainda muito mais forte - não sei se em sonho ou de facto - disse-me que deveria sobreviver.

 

Entrei em Lisboa com o meu ex-marido, as minhas duas gémeas, e o buraco que aquela lágrima da minha mãe tinha cravado no meu braço.

 

Além, é claro, das duas boquinhas inocentes e famintas, do homem já nos últimos estágios do processo de autodestruição e de uma “sérvia-bósnia” enlouquecida com o retorno forçado à fase pré-adolescente de construção da identidade, na nossa nova casa, apenas um colchão, uma mesa e uma janela com vista para o céu.

 

Mas hoje, quando o medo e o desespero são apenas “lembrança”, posso dizer que, nos momentos em que pensamos não poder mais, temos de nos ajudar. Cavar uma “saída” no nada, ou melhor, do nada. Esse esforço de mudança (ou sobrevivência) tem de partir de nós mesmos. Também é de nós mesmos que vem a humildade para aceitar a ajuda externa… abaixar a cabeça receber o que o mundo e os outros têm para mostrar…

 

Quando cheguei a Portugal, achava que jamais aceitaria. Não percebia nada do que as pessoas faziam ou falavam. A verdadeira ilustração do estrangeiro - e o pior, do estrangeiro saudoso. Mas saudades exactamente do quê? (na realidade, talvez já fosse mais Portuguesa do que imaginava…)

 

Minha vida passada tinha sido destruída. Aquilo que eu considerava “a minha casa” era então um mosaico de pequenos cacos de memórias: boas e ruins… Prender-me a isso poderia ser fatal… e não só para mim!

 

Pois é, tirei as forças para me abrir a este país do céu que via pela janela. Era ainda o mesmo que os meus pais viam de Belgrado, o mesmo que via nos “filmes” do meu passado.

 

Sabe, na vida temos de permanecer em movimento. Sempre! Senão ficamos presos entre o que foi e o que será.

 

O tempo e a vida são os bens mais valiosos. E a subsistência é uma mera função desses dois factores. O consolo tiramos do céu. E a paciência para esperar o tempo agir, bem lá do fundo do estômago (em muitos casos,  vazio…).

 

A minha vida tomou um rumo que eu tive de aceitar. Afinal o que traz a recusa?

 

Agora, olho o mesmo céu que me aterrorizava nos dias de “cegueira”. Lá fora, tudo parado. Aqui dentro, só o movimento do relógio: tic tic – tic tic

 

Não preciso mais voltar.

 

 

 

 

 

 

 


publicado por Beatriz Kolvitz às 10:43
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Uma estrangeira muda-se para Lisboa com o marido. Apaixona-se novamente e decide recomeçar, deixando para trás uma história já vazia de qualquer forma de comunicação. Num bar do Cais do Sodré, alguém nota a sua presença, participando da descoberta de uma cidade e de uma mulher, que poderia ser qualquer mulher de qualquer lugar. É dessas descobertas que fala a peça de teatro "Há mar em Lisboa", cujo guião está a ser desenvolvido neste blog. Participe sugerindo situações, diálogos e cenas, bem como enviando imagens de Lisboa. Ajude-nos a construir uma peça de teatro em movimento e interactiva.

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