Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

36 anos, estilista, Liége, Bélgica

Sou o resultado dum acidente - um acaso – que como muitos dos acasos na vida – deu certo.

Meu pai tinha 24 anos quando deixou Lisboa para estudar na Bélgica. Um dia, numa festa da Universidade, bebeu um pouquinho demais e… 

A minha mãe é francesa. Trabalhava num teatro e estava naquela festa, por acaso.

Na noite em que se conheceram, não trocaram juras de amor, nem telefones, nem e-mails (naquela época, para o bem das relações amorosas, a Internet ainda não existia).

 

Três meses mais tarde, a minha mãe percebeu que não estava mais sozinha, e tudo o que lembrava daquele homem (com quem dormira apenas uma noite) era o primeiro nome! E (estrategicamente) que ele estudava na Universidade de Liége.

 

Mas , como “quem procura acha!”, esse pouco foi o suficiente para encontrá-lo.

 

Há coisas na vida que têm de acontecer.

Pois é, os meus pais tinham de acontecer. E eu – também.

 

Nasci e morei em Liége até os seis anos, quando o meu pai decidiu retornar a Lisboa.

 

A minha mãe veio um pouco contrariada mas logo rendeu-se à cidade.

 

Existir aqui poderia até ser uma experiência agradável.

 

Os meus pais nunca mais foram embora. Já a minha história é diferente…

 

Aos quinze anos fui estudar em Paris e como a vida, ou melhor, as vidas são uma eterna repetição

 

Aos dezoito anos, fui a uma festa “da irmã da amiga da minha vizinha” (alguém com quem mantinha uma relação de extrema proximidade) e passei daquela noite para a manhã seguinte com “algo de vivo” no ventre.

 

Para resumir, seis meses mais tarde, casei-me com o ‘chef de cuisine’ que – depois de ter preparado entradas fantásticas para a festa onde nos conhecemos, atacou o prato principal – no caso, EU – às quatro horas da manhã no meio da Pont Neuf.

 

Nem preciso dizer que dessa aventura– além dum chef de cuisine ‘junior’ – resultaram 12 ‘maravilhosas’ horas na cadeia, sem contar o processo judicial por atentado ao pudor e desrespeito à ordem pública que tivemos de enfrentar mais tarde.

 

O bebé chegou três meses depois da festa de casamento – com direito a vestido de princesa e tudo, que os meus pais fizeram questão de mostrar aos amigos.

 

O meu amor pelo dito ‘chef de cuisine’ - em contraposição ao nosso casamento que durou muitos anos - teve a curta duração daqueles momentos efémeros e irresponsáveis que passamos juntos na Pont Neuf.

 

No segundo ano de convivência conjugal – resultado conseguido através dum esforço contínuo de desconsideração da realidade – recebi uma proposta para trabalhar em Nova Deli.

 

E lá fomos nós, ‘de mala, cuia e criança nas mãos’.

 

Mudar o cenário para mudar a história - (será que adianta???)

 

Depois de sete anos em Deli, o novo cenário ainda não tinha contribuído para a renovação do relacionamento que sofria de falta crónica de identificação mútua e partilha.

 

Então, achamos ‘razoável’ deixar Deli – afinal a culpa da nossa ruína era toda da Índia! – e decidimos mudar para o Brasil: o País do erotismo

 

Mas os oito anos em São Paulo não ajudaram muito… De sexo, só ouvíamos falar em telenovelas ou conversas com estranhos. Do meu episódio no Brasil não tenho muito para contar além das noites fantásticas no Madame Satã - um bar ‘muito católico’ da periferia de São Paulo - e uma história de amor proibido não consumada e - como tudo que não se consuma - jamais esquecida.

 

Voltei para a Europa com o meu filho e sem saber para onde ir

 

E, como sempre, para provar que algo parecido com a ideia de Deus existe – no exacto momento em que a único caminho que enxergava era sentar e chorar – a solução cai do céu, directamente nas minhas mãos.

 

Foi no aeroporto de Paris… não conseguia carregar toda a bagagem sozinha… e – de repente!!!!! – alguém aparece e me ajuda.

 

PORQUE?

 

Alguém pode explicar… eu que sempre fui uma inconsequente… que nunca fiz nada para merecer ser feliz… deve ter sido algum engano de logística divina: a pessoa errada estava no lugar certo na hora certa.

 

Já sabia qual caminho seguir.

 

Hoje, sete anos mais tarde, vivo (de novo) em Lisboa com o meu marido alemão que conheci no aeroporto de Paris.

 

Tudo vai muito bem. Estou tranquila, o meu fliho mais velho gosta de Portugal, eu e o meu marido tivemos uma filha, abrimos uma empresa, nos amamos.

 

Mas a ideia do grande engano não sai da minha cabeça.

 

E se alguém perceber que a entrega foi feita no endereço errado? E se a pessoa que deveria ter recebido o “pacote” – E NUNCA RECEBEU – descobrir tudo e vier aqui buscá-lo?

 

Não consigo mais pensar a minha vida sem ele.

 

Às vezes, penso em voltar para São Paulo.

 



publicado por Beatriz Kolvitz às 10:46
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Uma estrangeira muda-se para Lisboa com o marido. Apaixona-se novamente e decide recomeçar, deixando para trás uma história já vazia de qualquer forma de comunicação. Num bar do Cais do Sodré, alguém nota a sua presença, participando da descoberta de uma cidade e de uma mulher, que poderia ser qualquer mulher de qualquer lugar. É dessas descobertas que fala a peça de teatro "Há mar em Lisboa", cujo guião está a ser desenvolvido neste blog. Participe sugerindo situações, diálogos e cenas, bem como enviando imagens de Lisboa. Ajude-nos a construir uma peça de teatro em movimento e interactiva.

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