Terça-feira, 14 de Agosto de 2007

40 anos, jornalista, Santiago, Chile

Portugal é o porto que escolhi para ancorar o meu barco.

Depois de vaguear por aí durante mais de quinze anos…

Uruguai, Itália, França, Inglaterra, Suíça …

E de ter testemunhado muito…

Precisava dum lugar calmo e ensolarado.

Não quero voltar para o Chile.

Nem penso nisso.

Amo Lisboa…

Comprei uma casa no alto duma montanha, perto do castelo São Jorge.

Uma vista mais bonita para o Tejo seria impossível de achar.

Descobri este tesouro junto com um amigo.

Ele ficou com o primeiro andar e eu com o de cima: sou louca por alturas.

Depois de Zurique, Lisboa é um paraíso.

Mudei-me para a Suíça por causa do meu terceiro (ex-)marido.

Era fascinada por ele.

A gente se conheceu no Uruguai.

Ainda estava casada com o meu – monótono – marido uruguaio.

Mas não me controlei: pedi o divórcio e casei de novo.

Sabia que estava a pisar num campo minado…

Iria sofrer… como sofri.

Mas há coisas na vida que não se pode evitar.

Prefiro assumir um risco a pensar para sempre o que teria sido se…

E eu não me arrependo.

Juntos conhecemos Paris, Londres, Milão…

De alguma forma ele me mostrou muito e com ele eu aprendi muito sobre tudo.

 

Sobre cair e levantar,

sobre amar e odiar,

sobre perder e tirar proveito disso…

 

Há coisas que eu não vou compreender nunca…

Tudo era tão bom antes de Zurique...

Odeio essa cidade.

É uma prisão fria e escura!

Muito quieta, sem alma.

Estagnante.

A única razão para que eu esteja lá é minha filha.

Ela mora com o pai e a sua nova família.

Meus dias em Zurique se resumem a esperar pelos momentos efémeros em que finalmente poderei abraçá-la.

Sinto que estou a perder a minha vida num quarto fechado e sem luz.

É por isso que amo Lisboa.

É um refúgio…

Quando estou aqui…

a tristeza parece irrelevante  se comparada aos horizontes amplos dessa cidade …

A dor perde a força…

E há tanta luz e tanta vida…

E… este rio... tão dinâmico,

nunca o mesmo…

Amo acordar com o barulho dos barcos e dos pássaros…

Um dia… quero chegar em Lisboa de barco.

Um barco de passageiros… grande e romântico.

 

Sabe, a vida é um filme.

Somos nós que escrevemos o nosso próprio roteiro…

E se, um dia, a história e as personagens se revoltarem  contra o criador,

É só terminá-la… De repente… sem misericórdia.

 

 

Estou acostumada a perder e a deixar.

Por isso não tenho medo de me prender às pessoas, de me amarrar.

Faço compromissos da mesma forma com que me livro deles…

Gosto de ter sonhos e de buscá-los.

E se, de repente, um sonho deixar de ser um sonho… invento outro.

Há quem chame isso “irresponsabilidade”.

Eu prefiro a palavra “sinceridade”.

Ainda tenho alguns problemas para resolver em Zurique.

Mas, a cada vez que venho a Lisboa, renasço.

Quando nos abrimos para coisas novas, não há “tempo ruim”.

Às vezes chove,  muito…

Mas não há nada que se possa fazer contra isso.

É a vida.

Quando tinha 20 anos… era absolutamente  ambiciosa:

Queria fazer tudo, ver todos os lugares, conhecer todo o mundo…

Agora estou satisfeita com o meu sonho de mudar para a minha casa na montanha …

Ao pé do castelo.



publicado por Beatriz Kolvitz às 10:54
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1 comentário:
De Ela a 31 de Março de 2008 às 18:22
Olá! Seu blog é muito bacana. O encontrei ao procurar pelo Chile. Estive lá com meu marido este ano e adorei. Queremos retornar assim que possível para dar uma passeada pelo sul. Onde morou, em Santiago?


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Uma estrangeira muda-se para Lisboa com o marido. Apaixona-se novamente e decide recomeçar, deixando para trás uma história já vazia de qualquer forma de comunicação. Num bar do Cais do Sodré, alguém nota a sua presença, participando da descoberta de uma cidade e de uma mulher, que poderia ser qualquer mulher de qualquer lugar. É dessas descobertas que fala a peça de teatro "Há mar em Lisboa", cujo guião está a ser desenvolvido neste blog. Participe sugerindo situações, diálogos e cenas, bem como enviando imagens de Lisboa. Ajude-nos a construir uma peça de teatro em movimento e interactiva.

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